TERRA QUENTE

Cheguei à fazenda achando que ficaria pouco. Era só uma visita, alguns dias longe da cidade, do barulho, das decisões rápidas. Mas há lugares que não nos acolhem; nos absorvem.

A estrada de terra ainda vibrava nos meus ossos quando a casa surgiu, grande, assentada no meio dos pastos e árvores talvez centenárias. A poeira parecia ter memória. Daniel me esperava no avarandado. O abraço foi firme, um pouco mais longo do que o necessário. Sorri. Foi então que vi Clara, atrás dele, interrompendo o que fazia para me observar.

Ela enxugou as mãos no avental com um cuidado lento. Não se aproximou. Não sorriu. Permaneceu ali, o corpo levemente inclinado para frente, avaliando não apenas minha presença, mas o efeito dela sobre o espaço. O olhar era direto, contínuo. Antes que Daniel me apresentasse, ela já parecia ter decidido quem eu era.

A fazenda tinha um ritmo próprio. O calor não vinha só do sol; vinha do chão, das paredes grossas, do ar que parecia sempre em suspensão. À noite, os ruídos se estendiam: madeira estalando, insetos insistentes, um gado distante. Durante o dia, tudo parecia esperar por algo que não se nomeava.

Daniel falava da lida, dos planos, das cercas que precisavam de reparo. Gostava de explicar, de desenhar com as mãos o que já conhecia de cor. Falava para mim, mas muitas vezes interrompia o próprio raciocínio para procurar Clara com o olhar, buscando, talvez, uma confirmação silenciosa antes de concluir a frase. Ela surgia e sumia. Às vezes trazia café, apoiando a xícara na mesa com um leve atraso calculado. Às vezes ficava parada, encostada ao batente da porta, apenas ouvindo, como se aquele assunto também lhe dissesse respeito.

Quando nossos olhares se cruzavam, havia permanência. Clara não desviava primeiro. Mantinha o olhar até que eu sentisse a necessidade de quebrá-lo ou assumir o desconforto. Era uma escolha que ela me entregava, mas cujo resultado já conhecia.

À mesa, à noite, sentávamos os três. A madeira estava marcada por anos de uso, sulcos fundos de pratos, facas, cotovelos. Daniel servia o vinho com cuidado excessivo, medindo a quantidade, observando o nível dos copos. Clara cruzava as pernas lentamente, o gesto deliberado e marcador de um compasso. O assunto nunca chegava perto do que nos rondava; desviava sempre no último instante, à semelhança de um animal que reconhece o perigo e decide circundá-lo.

No quarto de hóspedes, o sono vinha em pedaços. A casa rangia. Passos se aproximavam e se afastavam. Vozes baixas, controladas, nunca elevadas. Em certos momentos, era o silêncio que me acordava, pesado demais para ser ignorado.

No dia seguinte, Clara me chamou para ajudá-la no galpão. Não pediu; determinou. Daniel estava no campo, distante o suficiente para não ouvir, perto demais para ser considerado ausente. O sol entrava pelas frestas da madeira em lâminas oblíquas, desenhando o pó suspenso. O ar era espesso, quase íntimo.

Ela se abaixou para pegar uma ferramenta. O vestido acompanhou o gesto sem pudor, sem pressa. Clara sabia exatamente o ângulo, a duração e a distância entre nós. Pensei em tocá-la. Não toquei. O pensamento ficou ali, exposto, e ela percebeu.

– Você sempre olha assim? – perguntou sem me encarar, ajustando a ferramenta na prateleira.

Não respondi. Corei. O silêncio foi aceito como resposta suficiente.

Com o tempo, percebi que Clara nunca se aproximava por acaso. Pedia ajuda quando sabia exatamente onde Daniel estava e quanto tempo levaria para voltar. Falava comigo usando frases que podiam ser repetidas sem escândalo, mas não sem efeito. Tocava meu braço ao explicar algo banal, deixava os dedos ali um segundo a mais do que o necessário e retirava a mão antes que o gesto se completasse. Nunca havia excesso. Era ela quem decidia quando algo começava e quando terminava.

Daniel observava. Às vezes demorava demais para acender um cigarro. Às vezes ria fora de hora. Uma noite, serviu vinho e deixou a garrafa cair na mesa com força desnecessária. O líquido balançou, quase transbordou. Pediu desculpas e sorriu. Não havia raiva visível. Clara apenas pousou a mão sobre a mesa, firme, estabilizando o copo antes que caísse.

Clara circulava pela casa com uma naturalidade estudada. As roupas eram simples demais para serem inocentes. Os gestos, lentos demais para passarem despercebidos. Não parecia buscar atenção; administrava fluxos, tempos e reações. Quando Daniel se aproximava, ela o tocava no pulso, um gesto mínimo, e ele recuava meio passo. Não por medo, mas por hábito.

Certo dia, ela me chamou ao escritório. A porta se fechou com um som seco, definitivo. Clara não se aproximou de mim. Caminhou até a janela e permaneceu ali alguns segundos, observando o exterior. Do lado de fora, Daniel trabalhava, curvado sobre a terra, o corpo obediente ao esforço repetido.

– Às vezes, disse ela, – as pessoas acham que disputam algo entre si.

Ficou em silêncio, deixando que o peso da frase se acomodasse. Esperava que eu completasse. Não completei.

– Outras vezes, continuou, – acham que escolhem.

Virou-se. O olhar era tranquilo, quase curioso; havia nela uma certeza que não precisava ser afirmada.

– Observe melhor, disse ela.

Abriu a porta. O dia seguiu e aquela última frase foi apenas mais um objeto colocado no lugar certo.

Naquela noite, sentou-se entre nós à mesa. Não como quem ocupa um espaço neutro, mas como quem reorganiza a geometria. Tocava o braço de Daniel enquanto falava comigo. Olhava para mim quando respondia a ele. A atenção circulava com precisão matemática, sem sobrar nem faltar. Daniel permitia. Eu acompanhava, sem saber quando foi que tinha deixado de decidir.

Quando ela se levantou para dormir, não convidou ninguém. Apenas foi. Daniel não a seguiu de imediato. Ficou sentado, olhando o copo vazio.

– A casa tem regras, disse quase que para si.

Horas depois, na madrugada, Clara entrou no meu quarto. Não bateu. Não pediu. A porta se abriu apenas o suficiente. Aproximou-se cumprindo algo já decidido. O gesto não tinha urgência; tinha direção. O olhar não buscava permissão; verificava disponibilidade.

O que aconteceu não foi entrega; foi condução. Cada movimento dela parecia antecedido por um pensamento que eu não tinha tido. Em nenhum momento senti que pudesse alterar o curso de algo. Clara não dominava pela força, mas pela clareza. Quando terminamos, levou a mão aos meus lábios, impedindo qualquer palavra.

– Não confunda, sussurrou.

Saiu antes que eu perguntasse o quê.

No café da manhã, Daniel estava muito calmo. Arrumava a mesa com um cuidado quase cerimonial. Clara serviu o café, tocou-lhe o ombro, beijou-lhe a testa. Ele fechou os olhos por um instante breve. Quando anunciei minha partida, ele apenas assentiu. Clara demorou a reagir. Depois me abraçou com firmeza medida, o corpo inteiro presente, o rosto sereno.

– Você sabe o caminho, disse.

Não soou como convite.

Daniel observava.

Deixei a fazenda com a sensação de que nada ali havia acontecido fora do previsto. Clara não provocava para ser desejada. Organizava. Distribuía. Retirava. Daniel sustentava o que ela mantinha em movimento.

Na cidade, dias depois, ainda me pegava esperando sinais ou ordens que nunca vieram.

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