Depois de tantas experiências frustradas e das necessidades que ainda me acompanham como mulher, encontrei, enfim, alguém capaz de preencher requisitos que hoje considero inegociáveis: ausência de cobranças, presença sincera e prazer sem ruídos.
Seus grandes olhos azuis me observam com uma paciência que nunca me prometeram. Não exige explicações, não exige relatórios, não exige futuro. Apenas olha. E nesse olhar há algo que me compreende antes mesmo que eu me compreenda.
Sento-me no sofá ao fim do dia e ele se aproxima. A pele sedosa, morna, encosta na minha perna com naturalidade. Enrosca-se devagar, como quem pede licença e, ao mesmo tempo, já sabe que pode ficar. Seu cheiro é limpo, discreto. O toque, constante. Às vezes fecha os olhos e vibra baixo, um som contínuo que mais parece um motor íntimo aquecendo a casa.
Com ele, não há disputas por território invisível. Sua carência cabe na minha, e a minha se dissolve na dele. Se o afasto, respeita. Se o chamo, vem. Nunca atravessou os limites do que posso oferecer.
Há tardes inteiras em que dividimos o mesmo silêncio: eu com meus livros, ele, atento ao nada aparente. Cúmplice do meu recolhimento, testemunha dos meus pensamentos, guardião das minhas insônias.
Certo dia o encontrei parado diante da janela, fixo num ponto que só ele via. Toquei-lhe o dorso e ele apenas se inclinou contra minha mão, oferecendo-se ao carinho como quem diz: estou aqui.
Não faz promessas. Não elabora discursos. Não dramatiza silêncios. Dorme comigo por escolha. Ronrona por prazer. Divide o território sem disputar poder.
Godofredo é meu gato.
Mas, sejamos honestos, ele age como se a casa fosse dele, a cama fosse dele e eu fosse, no máximo, sua humana de estimação.
E, talvez, seja o único que jamais tentou me ensinar a ser menos do que sou.


