A LITURGIA DO INTERDITO

Naquela cidade onde os sinos marcavam o tempo com severidade e as janelas se fechavam antes que a noite ousasse crescer, vivia Carmen. Esposa exemplar, anfitriã irrepreensível, organizava a casa com a mesma disciplina com que organizava os próprios sentimentos.

Casara-se aos dezenove. Recordava ainda o vestido branco pesado demais para o calor da igreja e o gesto firme do marido ao ajustar-lhe o véu. Ele era homem de convicções retas e poucas palavras. Em sua casa, tudo tinha lugar, inclusive ela.

Nunca lhe faltara nada. Exceto aquilo que não sabia nomear.

Conheceu Augusto numa tarde de setembro, na biblioteca paroquial. Ao devolver um volume de sonetos, percebeu que ele a observava com atenção quase íntima. Tinha mãos manchadas de tinta e um modo particular de sustentar o olhar, não invasivo, mas persistente.

Foi na troca de versos que algo se abriu. Entre páginas de capa azul, passaram a esconder bilhetes breves. Não eram declarações; eram perguntas. “Você também sente?”, escreveu ele certa vez. Carmen levou horas para responder. “Sempre senti.”

O amor não chegou como tempestade, mas como infiltração. Instalou-se nos intervalos: entre a missa e o almoço de domingo, entre a louça secando e a rua escurecendo. A primeira vez que as mãos dele tocaram as suas foi sob a figueira antiga do adro. O toque poderia ter sido acidental, não fosse a permanência. Um segundo a mais. Depois outro.

Foi esse acréscimo mínimo que a desarmou.

Na casa abandonada à margem do rio, beijaram-se pela primeira vez. O contato foi lento, quase solene, como se repetissem um rito antigo. Carmen sentiu o mundo reduzir-se à temperatura da boca de Augusto. Quando as mãos dele deslizaram por suas costas, sob o tecido leve do vestido, algo nela cedeu, não como queda, mas como entrega consciente.

Era desejo, mas era também descoberta: seu corpo possuía uma linguagem que jamais lhe fora ensinada. E aprendeu.

Cada encontro trazia o ardor e o receio. A cada regresso, Carmen tinha a impressão de que os móveis estavam ligeiramente deslocados, como se a casa também percebesse a mudança. O marido, certa noite, tocou-lhe o pulso com firmeza incomum.

– Está febril? – perguntou.

Não estava. Era outra chama.

Os murmúrios começaram discretos. Duas mulheres calaram-se quando ela atravessou a praça; o pároco demorou-se demais ao apertar sua mão. A cidade parecia ter adquirido olhos.

Numa noite de vento forte, reencontraram-se junto ao rio. Não falaram de futuro. O corpo substituíra as promessas. O abraço em corpo desnudo foi mais demorado que de costume, como se cada centímetro de pele precisasse memorizar o outro. Carmen sentiu nos lábios de Augusto não apenas desejo, mas despedida.

– Se partirmos, murmurou ele, deixaremos mais do que lembranças.

Carmen não respondeu. Pela primeira vez, foi ela quem o beijou com urgência.

Depois disso, vieram apenas versões. Disseram tê-lo visto na estação. Disseram que nunca partiu. Disseram que o marido de Carmen visitara a biblioteca numa tarde em que ninguém mais estava ali.

Carmen permaneceu.

Continuou a acender as luzes ao entardecer e a fechar as janelas antes que o bronze dos sinos se espalhasse pelo ar. Passou a frequentar o rio com regularidade, mas nunca no mesmo horário.

Certa manhã encontrou, entre as páginas de um livro que jurava não ter aberto havia meses, um bilhete dobrado em quatro. Reconheceu a letra.

“Há caminhos que não exigem partida.”

Ela não sorriu.

Naquela noite, ao toque prolongado dos sinos, Carmen permaneceu imóvel no centro da sala. O marido a observou do vão da porta. Havia em seu semblante algo que não se podia nomear: não era saudade, nem remorso, nem esperança, mas talvez a soma inquieta de tudo aquilo que ainda não terminou.

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