AS METÁFORAS

O relógio de parede era um sargento ranzinza, chicoteando os segundos no lombo do silêncio. No centro da sala, Juvenal era um pneu murcho jogado num sofá que agia como uma areia movediça de veludo. Sua barriga, um balão de hélio prestes a pedir demissão, transbordava por cima do cinto — uma jiboia de couro que já não sufocava mais ninguém.

Sua esposa, Dalva, entrou no recinto como um furacão de avental, carregando um olhar que era pura pimenta malagueta nos olhos de um cego. Suas palavras eram metralhadoras de pipoca: faziam barulho, mas só enchiam o saco.

— Juvenal, sua preguiça é um oceano de melaço! — disparou ela, as mãos nos quadris transformados em alças de uma xícara de porcelana quente.

Juvenal tentou responder, mas sua voz era um motor de fusca no inverno, engasgando em óleo velho. Ele se levantou, sendo um guindaste enferrujado lutando contra a gravidade de um planeta de chumbo. Seu destino era a cozinha, aquele laboratório de desastres onde a geladeira era um sarcófago de iogurtes vencidos e sonhos mofados.

Ele buscava a cerveja, uma pequena ampola de ouro líquido, a única bússola que guiava seu sábado para o norte do esquecimento. Ao abrir a lata, o estalo foi um aplauso solitário em um teatro vazio.

Dalva, agora um satélite de vigilância, estacionou na porta. Seu rosto era um mapa de tempestades iminentes.

— Beber essa cevada é cavar um buraco no próprio jardim — sentenciou a mulher, sendo um dicionário de verdades indesejadas.

Juvenal deu um gole. O líquido foi um tobogã de frescor descendo por uma garganta que era um deserto em dia de greve de chuva. Ele olhou para Dalva e viu, não uma esposa, mas um farol girando desesperadamente para avisar um navio que, na verdade, já era um submarino feliz no fundo do mar.

Ele sorriu. Seu sorriso era uma ponte levadiça subindo para impedir a entrada de qualquer lógica. O casamento deles era uma partida de tênis sem bola, onde os dois batiam as raquetes no ar e juravam que estavam vencendo o torneio.

A tarde era um chiclete esticado ao máximo, e Juvenal, aquele velho caracol de pijama, recolheu-se para sua concha de indiferença, enquanto o mundo lá fora continuava sendo um circo sem lona, pegando fogo sob uma chuva de confetes.

Juvenal fechou as pálpebras, que eram cortinas de ferro baixando para o encerramento de um espetáculo de comédia pastelão. O mundo, agora um rádio fora da tomada, mergulhou no breu de sua sesta sagrada. Ali, naquele casulo de roncos que soavam como trovões em uma lata de biscoitos, ele não era mais um pneu murcho ou um guindaste enferrujado.

Ele era o rei de um império de travesseiros, governando um território onde o silêncio era um cobertor de lã pesada, abafando os gritos do furacão Dalva que ainda varria os corredores da casa. O sábado, enfim, transformou-se em uma estátua de sal, imóvel e branca, enquanto a vida, aquela eterna costureira cega, continuava a dar nós cegos em um tapete que ninguém jamais chegaria a estender.

O sol, uma gema de ovo escorrendo pelo horizonte de vidro, deu o último suspiro de luz.

Um ponto de piche em um papel em branco.

A existência de Juvenal, enfim, tornou-se um livro lido até a última margem, onde as letras se cansam de segurar o peso dos significados e desabam no rodapé. O dia, esse carrasco de terno dourado, guardou seu machado na bainha do horizonte e deixou que a escuridão fosse o verniz final sobre o móvel empoeirado da rotina.

Ali, no vácuo entre o ronco e o sonho, o tempo parou de ser um rio para se tornar uma poça estagnada, refletindo o nada absoluto de uma comédia sem aplausos.

Uma semente preta plantada no centro do silêncio.

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