A chuva caia leve o suficiente para cobrir o barulho dos passos. O corpo foi encontrado ao lado do portão do cemitério municipal, deitado, pernas esticadas e mãos cruzadas sobre o peito. Nenhum sinal de luta ou armas; tudo parecia ter sido meticulosamente arrumad
O tenente Augusto chegou pouco depois da 7h. Analisou a cena em silêncio. O perito o chamou: – tinha isso dentro do bolso do casaco.
Era um bilhete. Papel simples, tinta azul e nele escrito: “Haverá sinais.”
Augusto leu e releu a frase. Soava como provocação ou promessa.
Também foi encontrada uma fotografia.
O relógio no pulso do morto marcava 2:17. Estava parado.
De volta à Delegacia, o tenente espalhou os objetos sobre a mesa: o bilhete, o relógio e a fotografia amassada. Na imagem, um grupo de pessoas em frente a um casarão antigo. Todos sorriam, menos um homem no canto – expressão séria, olhar fixo. Atrás da foto, alguém escrevera “Nem todos voltam do que veem.”
Augusto mandou que procurassem o casarão da foto. Ninguém reconheceu o local; parecia ser de outra época.
Naquela noite, ele retornou ao cemitério. O chão de terra ainda guardava pegadas, duas fileiras indo em direções opostas. Seguiu-as até uma pequena cruz de madeira já gasta pelo tempo. Gravado nela, o número 217.
Debaixo da cruz havia um envelope plástico. Dentro, um mapa da cidade com três pontos vermelhos. No canto superior direito, a mesma frase: “Haverá sinais”.
O primeiro ponto marcava uma casa no alto do morro. Encontrou o porão com cheiro de gasolina, uma cadeira virada e cordas cortadas. No chão, desenhado a carvão, o cálculo matemático: 39 + 178 = 217.
O segundo ponto era um hotel desativado na região central. No quarto 217, um rádio antigo estava ligado, emitindo chiados. Quando Augusto se aproximou, uma gravação começou a tocar. A voz metálica, mas nítida, dizia: – Está vendo, tenente? Eu avisei … haverá sinais.
Ele congelou a espinha! Reconheceu o timbre da voz. Era o seu.
Mandou recolher o aparelho e a fita, mas nenhuma gravação foi encontrada depois. Além disso, o técnico jurou que o rádio sequer funcionava.
O último ponto do mapa levava ao cais. O rio dormia sob a neblina. Entre os destroços de um barco, Augusto encontrou uma outra fotografia – quase igual a de antes, mas com uma diferença: o homem sério do canto era ele.
Na beira da água, encontrou outro bilhete parcialmente molhado: “os sinais não são deixados por quem mata… mas por quem vai morrer.”
Augusto ficou parado por um longo tempo, observando a correnteza. Tentava entender se alguém o estava manipulando ou se as peças já estavam lá.
Quando olhou para o seu relógio, verificou que os ponteiros haviam parado e marcavam 2:17.
O som distante de um rádio surgiu do outro lado do rio, breve e indecifrável.
Ele pensou em voltar no dia seguinte, refazer o caminho, verificar cada detalhe. Mas, por algum motivo, teve a sensação de que já havia feito isso antes.
A brisa soprou um outro bilhete em sua direção, mas caiu dentro d´água antes que ele o alcançasse. As letras começaram a se apagar, mas deu pra ler o que nele estava escrito:
Haverá sinais.
E Augusto, pela primeira vez, duvidou se ainda era o investigador ou era parte da cena.


