Isso aconteceu quando ele ainda era criança.
Não houve confusão.
Não houve erro de interpretação.
Um adulto atravessou um limite que não deveria existir.
Um corpo pequeno foi usado sem escolha.
Depois, veio o silêncio.
Não como ausência de som, mas como um comando ameaçador.
Não houve grito.
Houve paralisia.
O corpo aprendeu a ficar imóvel.
Naquele instante, resistir parecia mais perigoso.
A ameaça não precisou ser dita em voz alta.
Foi sussurrada:
– Ninguém acreditará.
E por muito tempo, a criança acreditou nisso.
A vida seguiu.
A infância passou como pôde.
Ele cresceu.
Estudou.
Trabalhou.
O toque tornou-se suspeito.
O prazer, atravessado por culpa.
A confiança, sempre tardia.
Sorriu quando esperavam que sorrisse.
Mas o corpo guardou o que a mente tentou organizar.
Em certas situações, enrijecia.
Em alguns cheiros, ele era lançado no tempo pelo retrovisor.
Em determinados olhares, o medo antigo retornava sem aviso.
Não era loucura.
Não era exagero.
Era memória encravada no corpo.
O trauma não se apresentava como lembrança clara, mas como tensão constante.
Como enjoo sem causa aparente.
Como a vontade súbita de desaparecer de si.
Durante anos, acreditou que o problema era ele.
Que era fraco.
Que deveria ter superado.
Porém, o que aconteceu não ficou no passado.
Instalou-se por inteiro.
Na forma como dorme.
Na maneira como reage.
No modo como se protege até hoje.
Dar nome foi difícil.
Aceitar levou ainda mais tempo.
Ele foi ferido.
E feridas profundas não pedem esquecimento.
Pedem cuidado.
Tempo.
Mas compreender abriu um espaço novo.
E o direito de dizer, finalmente:
– Isso aconteceu comigo.
– E não foi minha culpa.


