ARROMBAMENTO INSTITUCIONAL

A rua não tinha nome, apenas número. Uma dessas vias largas de Brasília, onde as árvores parecem alinhadas por decreto e as enormes casas, embora distintas, partilham o mesmo pacto silencioso: nada deve chamar atenção.

A casa do ministro ficava no meio do quarteirão. Muros altos, câmeras discretas, portão que deslizava sem ruído. Ali morava um dos homens mais poderosos do país, integrante do Supremo Tribunal Federal. Suas decisões não quebravam portas, reordenavam destinos.

Naquela noite, chovia fino. Não o bastante para lavar a cidade. Apenas o suficiente para desfocar contornos.

O arrombamento foi simples, quase elegante. Um corte preciso na cerca elétrica. Um ponto cego estudado com paciência. A fechadura cedendo sem estilhaço. Nada que lembrasse espetáculo. Parecia mais execução do que invasão.

O ministro estava em Lisboa. Discursava sobre democracia e garantias constitucionais diante de uma plateia que aplaudia com convicção fotogênica. Falava de instituições sólidas enquanto, a milhares de quilômetros, a sua própria era atravessada sem alarde.

Os invasores não reviraram a casa. Ignoraram pratarias, obras de arte, eletrônicos. Foram direto ao escritório.

Atrás da estante de livros jurídicos, constituições anotadas, tratados sublinhados, volumes com dedicatórias cerimoniosas, havia um cofre. Não foi arrombado. Foi aberto.

Dias depois, os jornais noticiaram com sobriedade protocolar: “Residência de ministro é alvo de criminosos.” Joias. Relógios. Dinheiro em espécie.

Versão oficial.

Nos corredores, as perguntas eram outras. Por que dinheiro declarado? Por que só o escritório? E por que nenhuma desordem?

Um assessor comentou que o ministro “andava desagradando setores sensíveis”. Outro falou em aviso. Um terceiro insistiu: crime comum.

Mas em Brasília, até o acaso tem filiação partidária.

Na semana seguinte, as redes sociais transformaram o fato em arena.

Retaliação extremista.

Encenação estratégica.

Conspiração interna.

Cada grupo moldando a narrativa como quem ajusta lente ideológica.

O ministro retornou com expressão austera. Declarou confiança nas instituições. Condenou tentativas de intimidação. Falou pouco.

Nada disse sobre o cofre. Nem sobre o envelope pardo que retirara dele na véspera da viagem, guardando-o na pasta que levou consigo para além-mar. Em Lisboa, enquanto discursava, a pasta não saiu do seu lado.

O detalhe não constava em registro algum.

Dias depois, uma decisão monocrática de sua lavra incendiou novamente o país. Houve quem visse nela rigor democrático; houve quem enxergasse excesso de poder. A polarização cumpriu seu ritual previsível.

Na casa, reforçaram a segurança. Novo sistema de vigilância. Muro mais alto. Portas revisadas.

O cofre permaneceu no mesmo lugar.

Formalmente vazio.

Talvez, o verdadeiro arrombamento não tenha sido o da residência, mas o da zona invisível onde poder e narrativa se confundem. Porque, na capital da República, certos acessos não deixam marcas na madeira nem nos relatórios policiais. Abrem-se dentro do próprio Estado.

E, quando o que desaparece não é dinheiro, mas confiança, não há perícia capaz de medir o rombo, apenas a lenta erosão de uma República que aprendeu a conviver com portas abertas demais e verdades fechadas demais.

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