CARVÃO

Até ali, a história de Anderson não tinha nada de extraordinário. Ele era apenas mais um menino da favela que sonhava em jogar futebol. No morro do Cai-Cai, sonhar era quase uma obrigação, porque a realidade não oferecia muitas alternativas.

Acordava cedo, mesmo quando não havia jogo. Amarrava o tênis gasto, pegava a bola e descia o morro desviando dos buracos. Jogava em qualquer lugar. Corria pela ponta esquerda como se tivesse urgência no corpo. Não era alto, nem forte como os outros, mas pensava rápido, enxergava espaços, fazia o jogo andar.

– Vai, Carvão! – gritavam os amigos.

O apelido vinha da pele escura e do fôlego infinito. A mãe não gostava, mas ele aceitava. Aceitar era mais fácil do que brigar.

Dona Dulce lavava roupas para fora. Voltava no fim do dia com o corpo cansado e as mãos ardendo de sabão. Criava seis filhos sozinha desde que o marido fora morto por uma bala do tráfico contra a polícia, daquelas que sempre encontram alguém que não tem culpa de nada. Anderson era o mais velho e sabia que, cedo ou tarde, precisaria ajudar de verdade.

Quando surgiu o campeonato “Moleque Bom de Bola”, ele se inscreveu escondido. Jogou como nunca. Driblava sem forçar, cruzava no tempo certo, gritava orientações mesmo para quem não conhecia. Não fazia muitos gols, mas fazia o time jogar melhor.

Foi ali que o homem do boné apareceu.

– Tem talento, garoto.

Duas semanas depois, veio a peneira. Mais de trezentos meninos, todos acreditando ser especiais. Alguns foram embora cedo, outros ficaram até o fim. Anderson jogou três vezes. Saiu exausto, mas escolhido.

Na conversa com Dona Dulce, o homem falava bonito. Europa, formação, futuro. Dois mil reais na hora. Pouco, mas necessário.

– É o caminho agora, dizia.

Dona Dulce assinou. Com medo, mas com esperança.

A despedida foi simples. Um abraço forte. A sacola com poucas roupas. E a frase estranha:

– Vai de navio. Dá menos problema.

O navio era velho demais. Anderson estranhou não haver outros passageiros. Tentou procurar o olheiro, mas ele não embarcara. Um homem o levou pelo braço até a casa de máquinas. O calor era sufocante. Entregaram-lhe uma manivela pesada.

– Gira!

Anderson girou. Pensou que estivesse ajudando. Só percebeu que algo estava errado quando o corpo pediu para parar e ninguém permitiu. Os braços queimavam. O suor ardia nos olhos. Quando o tiraram dali, estava tonto e com medo.

Os dias seguintes se repetiram. Trabalho pesado. Ordens que ele não entendia. Uma cama estreita. Choro abafado à noite. Tentou explicar quem era. Falou de futebol. Da Espanha. Ninguém ouviu.

Após quase um mês, o navio atracou.

– Clayton! – chamou um homem branco.

– Meu nome é Anderson…

– Tanto faz.

– Onde eu tô?

– Congo.

– Mas eu vim jogar futebol…

O homem sorriu, sem graça nenhuma.

– Futebol não paga o que você vale.

A fazenda ficava longe. O galpão servia de dormitório. Havia outros jovens ali. Todos magros. Todos calados. O trabalho era alimentar fornos de querosene, cortar madeira, carregar sacos e outros serviços braçais. O pó grudava na pele, entrava no nariz, queimava a garganta.

À noite, Anderson se via refletido em uma chapa metálica e quase não se reconhecia. Sempre sujo, sempre escuro. O próprio Carvão.

O futebol virou lembrança distante. O tempo fez perder o apelido.

Certo dia, chegou um grupo diferente à fazenda. Um homem de camisa clara, uma mulher com um bloco de anotações e outro que falava pausadamente com o capataz. Não usavam botas sujas. Não desviavam o olhar.

– Inspeção, – ouviu alguém dizer.

O coração de Anderson disparou.

Durante o almoço, observou de longe. Os adultos conversavam, apontavam coisas, faziam perguntas. O capataz sorria demais. Anderson sabia que aquela era talvez a única chance.      

Aproximou-se devagar. O capataz lançou-lhe um olhar duro.

– Volta pro galpão.

Anderson hesitou. As pernas tremiam. Pensou na mãe. Pensou nos irmãos. Pensou no menino que tinha chegado dias antes perguntando pelo campo de treino.

– Moço, – disse, com a voz falhando, olhando para o homem da camisa clara.

– A gente não é daqui. Prometeram futebol. Prometeram Espanha.

O silêncio caiu pesado.

– O que você disse? – perguntou o homem.

– A gente trabalha preso. Não pode sair. Não recebe dinheiro. Tem menino igual a eu. Tem mais chegando.

O capataz avançou um passo.

– Cala a boca!

A mulher anotou algo rápido. O homem da camisa clara encarou o capataz.

– Como ele veio parar aqui?

O capataz riu, nervoso.

– Menino confunde as coisas.

Anderson sentiu a mão forte puxá-lo pelo braço.

– Já chega.

Enquanto era arrastado de volta ao galpão, ainda conseguiu gritar:

– Conta pra minha mãe!

– Diz que eu não fui pra Espanha!

– Ela se chama Dulce.

Mais tarde, sozinho, Anderson não sabia o que iria acontecer com ele. Se seria punido. Se nada mudaria. Se aqueles estranhos realmente voltariam.

Mas, pela primeira vez desde que embarcara no navio, percebeu que tinha feito algo importante.

Do lado de fora, o caminhão de madeira continuava sendo carregado, o querosene despejado e o fogo ardendo nos fornos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *