Dulcinéia nasceu por acaso e cresceu à força. Filha de pai presidiário e mãe lavadeira, aprendeu cedo que o mundo não distribui gentilezas a quem chega pela porta dos fundos. Desde menina, acostumou-se a marchar sozinha. Marchando, endureceu o corpo; resistindo, afinou o caráter.
A mãe morreu quando Dulci, como era chamada, tinha doze anos. Doença breve, abandono longo. Do pai restaram apenas o barraco torto no alto da Favela do Angu e um silêncio sem retorno. Cumprida pena de prisão, partiu sem deixar rastro. Ninguém sentiu falta.
Aos dezoito, Dulci já levantava gente. Liderou a primeira passeata diante da Prefeitura, cobrando saneamento, dignidade, respeito.
– Nós também pagamos impostos!
Gritou alto, repetiu mil vezes. Demorou, mas os canos chegaram. Coincidência ou não, vieram junto com o calendário eleitoral.
Aos vinte, Dulci passou a ser o eixo do Angu. Construiu e organizou a Zeladoria Comunitária; dividiu terrenos com se cartório fosse, levantou paredes, puxou fios, chamou mutirões. Trouxe biblioteca, cursos, esportes, bailes. Deu forma à desordem. Mandava porque fazia; e fazia porque ninguém mais fazia.
Entre reuniões na Zeladoria do Angu e obras pelo morro, criara sozinha o filho, Feijão, neguinho pobre e sem pai como muitos por ali. Criara com livro na mão e olho atento. À noite, ela lia em voz alta Machado, Camões, Shakespeare, qualquer coisa que lhe caísse às mãos e abrisse mundo.
– Palavra é arma, filho; – dizia.
– Aprende a usar.
Feijão aprendeu. Na escola, destacou-se cedo. No palco, crescia. No inglês, surpreendia. Enquanto muitos desciam o morro para vender medo, ele estudava. Não demorou a virar referência.
A política chegou a Feijão como consequência natural. Quando sugeriram sua candidatura a vereança, Dulci apenas impôs uma condição: os estudos viriam primeiro.
Sem dinheiro, sem tempo de televisão, Feijão venceu no gogó. Falou de escola, de professor, de cultura e de sonhos para crianças e jovens. O povo ouviu. O povo votou.
Na Câmara, tornou-se respeitado. Seus discursos misturavam leis e vida, Constituição e morro. Nunca mentiu de onde veio.
Enquanto Feijão brilhava, Dulci começava a cansar. O Angu mudara. A fome avançava mais rápido que os projetos. A droga rondava. O medo se infiltrava.
Claudinho Beira-Rio queria o Angu. Não queria diálogo; queria domínio. Dulci resistiu enquanto pôde. Depois vieram os boatos, as acusações, as divisões. Até que, numa madrugada, queimaram sua casa. O aviso estava dado.
Mesmo assim, Dulcinéia foi à rua. Reuniu os que ainda acreditavam. Marchou contra o silêncio imposto.
Não houve acordo. Houve confusão. Gritos. Correria.
Quando tudo cessou, Dulci estava no chão, aberta na barriga de um lado a outro por uma faca. Alguém chamou seu nome. Alguém correu. Alguém se calou. Ninguém viu.
Naquela noite, fogos de artifício rasgaram o céu do Angu. Tiros ecoaram. Ninguém soube ao certo o que celebrar.
Dias depois, a Zeladoria do Angu amanheceu fechada. O portão rangia ao vento. Cartazes antigos ainda pendiam das paredes. No chão, um caderno de anotações permanecia aberto, com nomes, datas, sonhos escritos à mão.
E, em algum ponto do morro, um jovem lia em voz alta, treinando discurso diante do espelho.


