Na manhã do primeiro dia do ano, Álvaro acordou antes do despertador. Não por esperança, essa havia dormido tarde e seguia dormindo, mas por hábito mesmo, um vício antigo de abrir os olhos para conferir o extrato bancário invisível. Ficou alguns segundos olhando o teto. O teto, fiel à própria função, continuou sendo teto.
Levantou-se com cuidado, como se o chão pudesse lhe cobrar pedágio. Na cozinha, passou café e abriu o celular. Abriu de novo. Atualizou. Conferiu os números da Mega da Virada, embora já os soubesse de cor.
Errou todos.
Nem o consolo do “quase”. Nenhum número por piedade. Um fracasso redondo, limpo, matematicamente elegante. Álvaro suspirou, reconhecendo naquilo uma espécie de coerência pessoal.
– E agora? – disse ao filtro de papel.
Na noite anterior, fizera planos silenciosos. Nada grandioso: pedir demissão sem discurso, trocar o chuveiro que dava choque, comprar uma mesa que não balançasse, talvez uma poltrona confortável. Viajar era um luxo opcional. O essencial era a sensação de escolha, aquela liberdade dobrável que um dia já coubera na carteira junto do dinheiro vivo.
Agora, os planos permaneciam intactos, como caixas guardadas no alto do armário “para o caso de precisar”.
Lúcia surgiu na porta, o cabelo desalinhado, o pijama gasto pelo tempo compartilhado.
– Conferiu? – perguntou, sem expectativa.
— Conferi.
— Não deu.
Ela assentiu e sentou-se à mesa. Bebeu um gole de café.
– Pelo menos não vai aparecer primo distante pedindo ajuda.
Álvaro sorriu pouco. Um sorriso funcional, desses que evitam atrito. Pensou em dizer algo sobre o chuveiro, sobre a mesa, mas deixou passar. Não era dia de remexer em problemas.
Mais tarde, o grupo da família começou a se manifestar: prints de apostas perdidas, piadas recicladas, promessas de revanche no próximo ano. Álvaro respondeu com um emoji neutro, desses que não comprometem.
Saiu para comprar pão. No corredor, encontrou o vizinho do 402, animado demais para quem também não ganhara nada.
– E aí, milionário! – gritou, rindo antes mesmo da resposta.
– Faltou pouco, – disse Álvaro, por reflexo.
O vizinho deu um tapinha em seu ombro, como se compartilhassem algo além do azar, e seguiu rindo escada abaixo. Álvaro ficou um instante parado, irritado sem saber exatamente porquê.
Na padaria, a atendente comentou que alguém da capital levara o prêmio sozinho.
– Imagina, – disse ela, entregando o troco.
Álvaro imaginou. Imaginou o apartamento alheio, o teto diferente, o café com outro cheiro. Imaginou o corpo acordando leve, como se o futuro tivesse sido resolvido durante a noite.
De volta ao prédio, sentiu que algo não tinha sido perdido, apenas empurrado para depois.
À tarde, tentou assistir à retrospectiva do ano. Tragédias enormes, conquistas gritadas, especialistas convictos. Desligou a televisão. O silêncio, ao menos, não prometia nada.
Na varanda, abriu a carteira. O bilhete da Mega estava lá, dobrado com cuidado. Pensou em jogá-lo fora, mas tornou a guardá-lo. Não por esperança, mas pelo que representava: a coragem provisória de imaginar outra vida por alguns dias, pagando pouco por isso.
Lúcia apareceu outra vez.
– Vai jogar no ano que vem?
Álvaro pensou no trabalho aguardando, na mesa bamba, no chuveiro traiçoeiro. Pensou também na estranha leveza de não decidir nada importante naquele dia.
– Não sei.
O sol descia, cansado, dourando a rua. Um garoto tentava empinar uma pipa sem vento. Ela subia pouco, caía, insistia.
Álvaro pegou o celular, abriu o aplicativo da loteria, observou os números do próximo concurso. Não marcou nenhum.
– E agora?
A pipa caiu de vez. O garoto recolheu a linha e foi embora.
Álvaro fechou o aplicativo, guardou o celular no bolso e ficou ali. O café, esquecido sobre a mesa da cozinha, esfriava lentamente.



A curva da felicidade, com o tempo, é muito parecida pra quem ganha na loteria ou quem segue a vida trabalhando, como sempre. Ilusão pensar que a Mega Sena resolve os problemas que tão ali, esperando por resolução sem tanto gasto de carvão. Mas que eu queria ganhar, eu queria…