Eles se conheceram num domingo em que a cidade parecia cochilando. As ruas estavam quase vazias, as lojas fechadas, e o relógio da praça fazia tic-tac bem devagar, como se estivesse bocejando. Ana estava sentada no meio-fio, puxando o cadarço do tênis com força, franzindo a testa a cada tentativa frustrada.
– Ei… quer ajuda? – perguntou Miguel, que vinha chutando uma pedrinha e desviando das poças da calçada.
Ana levantou o rosto, limpou a poeira das mãos na bermuda e riu.
– Quero. Esse cadarço não gosta de mim.
Miguel se abaixou, amarrou o laço com cuidado e deu um nó firme. Quando terminou, Ana se levantou, bateu o pé no chão e deu dois pulinhos para testar.
– Funcionou! – disse ela, abrindo um sorriso largo.
Ela girou devagar, observando a rua silenciosa, e depois abriu os braços como se estivesse medindo o espaço.
– Parece que a cidade ficou só pra gente hoje.
– É, – Miguel respondeu, sentando no meio-fio e apoiando as mãos atrás do corpo. – Ninguém mandando, ninguém correndo.
Ana chutou uma folha seca, que rodopiou no ar antes de cair longe. Depois, caminhou até a sombra de uma árvore e encostou a testa no tronco.
– Às vezes parece que todo mundo espera que eu já saiba tudo – disse.
Miguel se levantou, pegou um graveto do chão e começou a desenhar linhas na terra.
— Eu também sinto isso. Mas eu ainda estou tentando descobrir.
De repente, Ana tirou os sapatos e os pendurou nos dedos.
– Vamos andar até onde a rua acaba?
Miguel arregalou os olhos, deu uma olhada para trás e depois sorriu.
– Vamos.
Eles caminharam pulando rachaduras no asfalto, equilibrando-se na guia da calçada e inventando desafios bobos. Quando o chão virou terra, Ana afundou o pé e riu alto.
– Olha! Parece areia molhada!
– Parece um lugar secreto – Miguel disse, abrindo os braços e girando uma vez.
Ana começou a correr, levantando poeira, desviando de pedras e dando risadas que ecoavam. Depois se jogou sentada na grama, respirando fundo. Miguel chegou logo depois e se deixou cair ao lado dela.
Os dois ficaram deitados, olhando o céu que mudava de azul para laranja. Ana contou nuvens, Miguel tentou adivinhar formas. Um pássaro passou rápido, e eles acompanharam com os olhos.
– O que é liberdade pra você? – Miguel perguntou, arrancando um pedacinho de capim.
Ana balançou os pés no ar.
– É poder escolher. E até errar.
– Pra mim – disse ele, – é poder respirar sem alguém dizendo o tempo todo o que eu devo fazer.
Eles ouviram os grilos começarem a cantar. Miguel estendeu a mão devagar, e Ana segurou, apertando levemente os dedos dele.
– A gente vai ter que voltar, – ele disse baixinho.
– Eu sei, – Ana respondeu. – Mas não precisa voltar igual.
Quando o céu começou a clarear, eles se levantaram. Ana sacudiu a grama da roupa, calçou os sapatos e amarrou sozinha o cadarço. Miguel bateu a poeira das pernas e deu uma última volta olhando o lugar.
– Não foi uma fuga, Ana disse, começando a andar.
– Foi um treino, – Miguel respondeu, alcançando o passo dela.
Voltaram rindo, inventando histórias e chutando pedrinhas.
A cidade parecia a mesma, mas os passos deles eram diferentes. Tinham vivenciado algo importante: a liberdade começa quando a gente descobre que pode escolher o próprio caminho, mesmo que ele seja só até o fim da rua.



Gostei demais, Ricardo! Parabéns! Cada um tem o direito de querer, no entanto, tem que assumir a responsabilidade pela conquista da própria liberdade. Para isso acontecer, às vezes, precisaremos nos livrar de nós mesmos; de nossos medos, paradigmas e tradições. A presença de alguém pode nos deixar com mais coragem para o começo.