Augusto tinha cinquenta anos incompletos e uma carreira moldada no período em que o país aprendera a diferenciar improviso de eficiência.
Administrador de empresas, formara-se nos anos em que a palavra governança ainda não havia sido sequestrada pelo marketing. Passara por privatizações, consórcios, fundos de investimento e empresas que mudavam de dono sem mudar de práticas.
A demissão veio numa manhã cinzenta, após a divulgação de um relatório interno que nunca se tornaria público. A empresa, uma holding de infraestrutura com contratos vultosos com o poder público, precisava demonstrar solidez diante de uma nova rodada de financiamentos. Havia pressa. Havia eleições no horizonte. Havia números que não podiam aparecer como eram.
Na reunião, falaram em responsabilidade institucional. Augusto, então Diretor, entendeu como lealdade seletiva. Pediram que assinasse documentos que diluíam grandes perdas em subsidiárias estratégicas, mascarando contratos aditivados sucessivamente com órgãos governamentais. Nada ilegal no papel, garantiram. Apenas politicamente necessário.
Augusto recusou.
Não denunciou, não confrontou, não dramatizou. Apenas pediu que sua discordância fosse registrada. O pedido bastou. Na semana seguinte, seu acesso aos sistemas foi limitado. Um mês depois, dispensado. A empresa divulgou nota reafirmando seu compromisso com a ética e a transparência.
Fora dela, Augusto descobriu que ética também tem custo político. Ao procurar recolocação, seu nome já circulava pelo mercado acompanhado de um adjetivo não escrito: difícil. E mais: Alguém que não entende o jogo. Um profissional tecnicamente irrepreensível, mas institucionalmente inconveniente.
Em entrevistas, ouviu variações do mesmo discurso:
– Hoje, as empresas precisam dialogar com o ambiente regulatório.
– É preciso sensibilidade política.
– Nem sempre o certo jurídico é o possível institucional.
Augusto, finalmente, percebeu que o mercado não o julgava pelo que fizera, mas pelo que se recusara a fazer.
Aceitou trabalhos menores, consultorias de curto prazo, empresas sem relações diretas com o Estado. Observava como as mesmas engrenagens se repetiam em escalas diferentes: dependência de favores, contratos cruzados e, finalmente, silêncio recompensado.
O discurso público falava em combate à corrupção; o privado, em sobrevivência.
Meses depois, recebeu uma ligação.
Do outro lado, um antigo colega agora instalado num cargo estratégico, voz baixa, cautelosa. Disse que havia uma vaga de direção administrativa numa empresa sólida, bem relacionada, com bom trânsito em ministérios e agências reguladoras. O salário era excelente. A estabilidade, promissora.
Havia, porém, uma condição e não seria escrita em contrato nem em e-mail.
A condição era compreender que certos relatórios não precisavam ser tão detalhados, que determinados atrasos tinham justificativas, que algumas decisões vinham “de cima” e não comportavam registro formal. Não se tratava de cometer ilegalidades explícitas, apenas de não criar problemas. De não deixar rastros. De saber quando olhar para o outro lado.
– Você entende como funciona, – disse o colega, sem precisar completar.
Augusto desligou o telefone e ficou algum tempo imóvel. Sabia exatamente como funcionava. Sempre soubera. A diferença é que, agora, o convite vinha com clareza suficiente para que não pudesse fingir ignorância.
Sobre a mesa, contas organizadas em pilhas denunciavam um controle que começava a falhar. Abriu a gaveta onde guardava documentos antigos e encontrou, quase por acaso, o primeiro contrato que assinara na vida. Estagiário ainda, letra insegura, salário modesto.
Lembrou-se do pai, que não entendia bem o que ele fazia, mas repetia que “nome limpo vale mais que cargo”. Na época, soava como frase pronta. Agora, como herança incômoda.
Sentou-se. Pegou papel e caneta, hábito que mantinha quando precisava pensar sem testemunhas. Começou a listar gastos, prazos, possibilidades. Em algum ponto, os números perderam sentido.
O problema não era só financeiro, mas também narrativo. Que história ele contaria a si mesmo dali a alguns anos? A de alguém que resistiu até onde pôde? Ou a de alguém que, pressionado, aprendera a negociar limites?
O celular vibrou. Uma mensagem curta do antigo colega: “Preciso de uma resposta até amanhã. Sem pressão.” Augusto sorriu, sem humor. Conhecia bem esse tipo de ausência de pressão.
Levantou-se e foi até o espelho do corredor. O rosto refletido parecia mais cansado do que ele lembrava.
Voltou à mesa. O telefone continuava ali, mudo, disponível. Do lado de fora, o país seguia discutindo moralidade em discursos e tolerância em contratos, indiferente a decisões pequenas demais para virarem notícia, grandes demais para não deixarem marcas.
Augusto respirou fundo. O dia seguinte viria de qualquer maneira. E com ele, a resposta. A partir dali, talvez a definição não apenas do seu trabalho, mas da forma como suportaria o próprio silêncio.
Qualquer que fosse a sua escolha, não seria apenas profissional. E, como toda decisão, cobraria seu preço desde logo ou mais tarde.


