MABEL

Mabel chamava atenção antes mesmo de falar. Havia nela uma precisão rara: a forma como ocupava o espaço, como sustentava o olhar, como parecia medir o mundo antes de se mover dentro dele. Era alta, negra, corpo moldado por anos de treino, mas o que realmente desconcertava não era isso, era a contenção. Como se estivesse sempre um pouco em guarda.

Tinha o nariz fino herdado do pai branco, neto de espanhóis, e os lábios largos da mãe descendente de africanos. O discurso oficial chamaria aquilo de síntese perfeita da revolução. Mabel jamais usaria essa palavra.

Eu era médico. Ela, estudante de medicina na Universidade de Havana e atleta multicampeã de esgrima. Conhecemo-nos durante um congresso internacional, desses cuidadosamente autorizados, monitorados e celebrados. Cuba precisava ser mostrada. Brilhante por fora. Vigiada por dentro.

Cheguei uma semana antes, fascinado como qualquer estrangeiro distraído. Varadero, a música constante, os prédios coloniais em ruína elegante. Mabel, no entanto, parecia viver em dois espaços bem delimitados: Havana e, dentro dela, a Ciudad Vieja — cenário turístico preservado com zelo quase cênico.

– Você gosta daqui? – perguntei certa tarde, caminhando pelo Malecón.

Ela observou o mar, depois os carros antigos passando como peças de um museu em movimento.

– Gosto… – respondeu. – É o único lugar que me deixam gostar.

Preparava-se para sua última competição internacional: a Copa do Mundo de Esgrima, em Havana. Aos trinta e dois anos, queria se formar, viajar, viver outras experiências. O problema não era o desejo, mas a gramática.

– Sair não é uma decisão pessoal, – explicou. – É um processo.

– Um processo político?

Ela sorriu de lado.

– Aqui, tudo é.

Por ser atleta consagrada, conhecera vários países. Sempre como vitrine. Nunca como cidadã. Isso lhe rendera privilégios: deixara o alojamento coletivo do Cerro Pelado, ganhara um apartamento individual após a medalha olímpica, recebera um Lada Laika antigo.

– O apartamento é seu? – perguntei.

– Está comigo, – corrigiu. – Não é meu.

– Qual a diferença?

– Que nada disso pode ir comigo, se eu decidir partir.

Não tinha dinheiro. Alguns dólares guardados de competições europeias. Dentro da lógica do regime, não precisava. O Estado lhe dava tudo. Em troca, seu corpo, sua disciplina, suas medalhas.

Vivemos dias intensos. Mudei minha passagem de volta. Ela me fascinava, mas havia nela uma tristeza sem espetáculo. Nos apaixonamos.

Entre treinos e aulas, caminhávamos por Havana com a urgência de quem sabe que o tempo ali não pertence às pessoas.

– Você já pensou em morar fora? – arrisquei.

Ela parou. Olhou ao redor, mesmo estando sozinhos.

– Pensar, todo mundo pensa, – disse baixo. – Falar é perigoso.

– Mas você é uma heroína nacional.

– Justamente. Heróis pertencem ao Estado.

Meses depois, ela decidiu. Não fugir; sair. Usou o que tinha: prestígio, contatos, paciência. Conseguiu um convite oficial da Universidade de Buenos Aires para ministrar aulas de esgrima. Documento seco, carimbo previsível, cinco mil dólares que lhe alcancei e uma encenação diplomática correta.

Da Argentina, veio para o Brasil.

– Você pretende voltar? – perguntei certa vez.

– Enquanto for assim, não. – Pensou um pouco. – E, quando deixar de ser, talvez já seja tarde.

Aqui, se espantava com banalidades: supermercados cheios, pessoas reclamando em voz alta, criticando o governo em mesas de bar.

– Vocês falam demais, – comentou.

– Isso é ruim?

Ela demorou.

– Ruim é desaprender a falar.

Casamos. Ela engravidou. Nasceu Ramon. Construímos uma vida possível.

Anos depois, numa manhã de novembro, o noticiário interrompeu a programação.

Fidel Castro havia morrido.

Mabel ficou imóvel diante da televisão. Não chorou. Não sorriu. Não comemorou.

– Então… acabou? – perguntou, mais para si do que para mim.

Não soube responder.

Dias depois, ligou para parentes em Havana. Conversas curtas, cautelosas.

– Eles não parecem aliviados, – disse. – Parecem cansados.

– E você?

– Aliviada, não. – Fez uma pausa. – Só decepcionada.

– Por quê?

Ela olhou para Ramon brincando no chão.

– Porque passei a vida esperando que um homem morresse. Ele morreu, mas…

Calou-se por um instante e concluiu, quase num sussurro:

– Fidel morreu. A revolução ficou. E nós seguimos exilados, uns fora da ilha, outros dentro dela.

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