– Lá vem ele outra vez com a sua caixinha!
A frase surgia sempre que a família se reunia lá em casa. Vinham risadas, comentários divertidos, alguns espantos. Eu sorria junto, mas por dentro, ficava quieto. Enquanto meus primos sonhavam em ser jogadores de futebol ou super-heróis, eu sonhava com sapatos. Não com qualquer sapato, mas com aqueles bem engraxados, de brilho tão forte que parecia espelho. O problema era quando alguém aparecia de tênis ou sandálias. Nesses dias, meu sonho ficava sem trabalho.
Meu pai usava sapatos elegantes. Antes de sair para o serviço, eu gostava de observá-los: limpos, alinhados, refletindo a luz da manhã. Um dia, movido pela curiosidade, abri um armário antigo perto da área de serviço e encontrei uma escova, um pano gasto e um pouco de graxa. Recolhi os sapatos da casa inteira e comecei a esfregar, sem saber ao certo o que fazia. O cheiro forte da cera, o som da escova batendo no couro e o brilho surgindo aos poucos me deram uma alegria difícil de explicar.
Quando meu pai percebeu meu entusiasmo, chamou-me de lado e sorriu:
– Se é isso que você gosta de fazer, faça bem feito.
Pouco tempo depois, mandou fazer uma caixinha de engraxate só para mim, dessas que se carregam penduradas no ombro. No dia em que a recebi, senti que tinha ganhado algo maior do que um brinquedo. Era como se tivesse recebido uma responsabilidade e, junto com ela, um lugar no mundo.
Comecei a bater de porta em porta no prédio, oferecendo meus serviços. O coração disparava a cada toque de campainha. Alguns vizinhos riam, achavam graça, mas aceitavam. As moedas iam para uma lata escondida no guarda-roupa. Cada uma parecia dizer que eu estava no caminho certo.
Aos treze anos, minha rotina estava definida. Voltava do colégio, largava a mochila no quarto e descia para o hall do prédio. Às vezes, ficava ali um bom tempo sem aparecer ninguém. Em certos dias, ninguém aparecia mesmo. Eu me sentava perto da parede, observando meus próprios sapatos, e me perguntava se aquilo tudo fazia sentido.
O conflito veio quando os comentários mudaram.
– Ainda com isso? – disse um colega da escola, ao me ver com a caixinha.
– Engraxate não é coisa de gente pobre? – provocou outro, rindo.
Naquela semana, pensei em desistir. Deixei a caixinha fechada em casa por alguns dias. Sentia falta do cheiro da graxa e do barulho da escova, mas tinha vergonha de admitir. Foi então que meu pai notou meu silêncio.
– Por que você não desceu hoje?
Dei de ombros.
– Acho que isso é coisa de gente pobre….
Ele não respondeu de imediato. Apenas abriu o armário, apontou para os próprios sapatos e disse, com calma:
– Nada é pequeno quando a gente faz com verdade.
No dia do meu aniversário, chamou-me para ir com ele à tabacaria do seu Jorge, nosso vizinho. Ao entrar, vi a cadeira. Grande, firme, de metal reluzente, com assento de couro preto e uma banqueta ajustável. Meu coração disparou.
– É sua, disse meu pai. – Se você ainda quiser.
Quis!
Naquela cadeira, vivi momentos que nunca esqueci. Engraxava pela manhã e estudava à tarde. Aos sábados, passava horas trabalhando, ouvindo histórias dos clientes e observando pessoas diferentes entre si, mas iguais no cuidado com os próprios caminhos.
Seu Jorge me acompanhava com atenção e dizia:
– Você não passa só graxa, menino. Você passa cuidados.
Quando ele morreu de repente, a cadeira ficou dias parada, como se ela também estivesse de luto. Pensei outra vez em desistir. Mas entendi que abandonar aquilo seria apagar uma parte de quem eu era.
Os anos passaram mais rápido do que eu esperava. Cresci, estudei, ajudei meu pai nos negócios. Vieram novas responsabilidades, novas decisões. Mesmo assim, nunca abandonei a cadeira. Em meio a tantas mudanças, ela continuava sendo meu ponto de retorno, meu primeiro começo.
Hoje minha vida é muito corrida. Faço investimentos, resolvo problemas e comando pessoas. Sou um empreendedor bem-sucedido, mas, ainda assim, ao menos uma vez por semana acordo cedo, visto o avental e vou para a minha cadeira de engraxate. Alguns estranham. Outros apenas sorriem.
Eu olho para os sapatos à minha frente, lembro do menino que quase desistiu e pergunto com a mesma frase de sempre:
– Vai uma graxinha aí, moço?
