O CONTO DO CARIBE

O CANTO DO CARIBE

O mar parecia pintado à mão.

A pequena ilha de San Gertrudes flutuava entre recifes turquesa do Caribe como algo esquecido pelo tempo. A areia era branca como sal fino, e as palmeiras inclinavam-se lentamente ao vento quente, rangendo como velhos mastros.

Juan ficou parado na varanda do pequeno bangalô, observando o horizonte.

– Valeu a pena vir, – disse ele.

Lola apoiou o queixo no ombro dele.

– Se meu chefe me ligar, eu me atiro nesse mar.

Juan riu.

Ela não.

Fazia semanas que Lola quase não dormia. O trabalho no hospital a deixava exausta, e aquela viagem fora ideia de Juan.

Um lugar isolado. Silencioso. Sem internet.

Parecia perfeito.

A pousada tinha apenas quatro bangalôs de madeira erguidos sobre estacas na areia. O dono era um homem idoso chamado Tomás, cuja pele escura parecia curtida por décadas de sol e sal.

Quando entregou a chave, ele os observou por um momento longo demais.

Então disse:

– À noite… evitem o mar.

Juan sorriu.

– Tubarões?

Tomás demorou a responder.

– Algo assim.

Na primeira noite, Lola acordou com um som vindo da praia.

Não era o vento.

Nem as ondas.

Parecia gente andando na água rasa.

Ela sentou na cama.

Passos.

Molhados.

Lentos.

Ela foi até a janela.

A lua iluminava a areia como prata.

E havia pegadas.

Muitas.

Dezenas delas.

Mas não pareciam com pés humanos.

Os dedos eram longos demais.

E entre eles havia marcas de membranas.

As pegadas vinham do mar.

E terminavam… exatamente embaixo do bangalô.

Lola acordou Juan.

Quando ele abriu a porta, a praia estava vazia.

Mas as pegadas continuavam lá.

Na manhã seguinte, o mar já havia lambido as pegadas.

Juan comentou com Tomás.

O velho ficou em silêncio por alguns segundos.

– Vocês ouviram um canto?

– Não.

Tomás soltou o ar devagar.

– Então está tudo bem.

Juan riu.

Lola não.

No terceiro dia, Lola explorou o lado oposto da ilha.

Havia uma pequena enseada escondida entre rochas negras. O lugar parecia isolado do resto da praia.

E havia algo errado ali.

A areia estava cheia de conchas quebradas.

E ossos.

Pequenos ossos brancos espalhados.

Ela pensou que fossem restos de peixe.

Até ver um crânio.

Humano.

Metade enterrado.

O estômago dela gelou.

Quando as ondas recuaram, revelaram mais ossos debaixo da água.

Lola voltou correndo.

Tomás ouviu em silêncio quando ela contou.

– Um navio afundou perto daqui, – disse ele.

– Quando?

Tomás olhou para o mar.

– Há muito tempo.

Na quarta noite, Lola acordou Juan.

– Escuta!

Ele se levantou.

E ouviu.

Um canto vinha do mar.

Era uma melodia lenta, profunda, quase triste. Não tinha palavras, mas parecia chamar alguém pelo nome.

Algo naquela voz fazia o peito apertar.

Juan abriu a porta.

A lua iluminava o oceano como metal líquido.

O canto continuava.

– Vamos ver.

Lola segurou o braço dele.

– Juan… não.

Mas ele já caminhava pela areia.

Ela o seguiu.

Quando chegaram perto da água, algo se moveu entre as ondas.

Um rosto.

Pálido.

Depois outro.

E outro.

Cabeças emergiam lentamente da superfície.

Cabelos escuros flutuavam na água como algas.

Os olhos eram completamente negros.

Uma delas sorriu.

A boca abriu mais do que deveria.

Muito mais.

O mar começou a se mover.

Não como ondas.

Mas como algo respirando.

Uma das criaturas ergueu o corpo.

Os braços eram longos demais.

As mãos tinham dedos unidos por membranas.

Lola sentiu as pernas fraquejarem.

Algo naquele som puxava.

Chamava.

Prometia.

– CORRE! – ela gritou.

Eles correram pela praia.

Atrás deles, o canto se transformou em algo parecido com risadas até desaparecer ao vento.

Dormiram, ou quase dormiram, trancados no bangalô.

Na manhã seguinte, Tomás os chamou para mostrar um pequeno depósito atrás da pousada.

Dentro havia redes velhas.

Garrafas com água do mar.

E fotografias.

Em uma delas, pescadores sorriam para a câmera.

Mas atrás deles, na água…

Havia formas pálidas observando.   

Tomás falou baixo:

– A ilha não pertence aos vivos.

Juan engoliu seco.

– O que isso quer dizer? – O que são elas?

Tomás apenas respondeu:

– Antigas, muito antigas.

Juan e Lola não quiseram mais escutar nenhuma palavra daquele velho doido!

Voltaram para arrumar suas malas e ir embora na manhã seguinte.

Mas o canto voltou.

Não vinha do mar.

Vinha por baixo do bangalô.

Algo raspava lentamente o assoalho.

Depois veio um sussurro.

– Lola…

Outro.

– Juan…

As tábuas começaram a estalar.

O chão se arqueava.

Como se algo enorme pressionasse por baixo.

Lola gritou.

Juan tentou abrir a porta e não conseguiu.

O canto aumentou tão alto que parecia vir de dentro da cabeça deles.

Então, mãos surgiram entre as frestas da madeira.

Pálidas.

Molhadas.  

Membranosas.

Dedos longos agarraram o piso.

As tábuas quebraram.

O chão cedeu.

E braços subiram da escuridão.

Muitos braços.

O canto agora era um coro.

E, então ….

Silêncio.

Ao amanhecer, Tomás caminhou até o bangalô.

A porta estava aberta.

A rede ainda balançava com o vento.

Dentro, apenas marcas profundas nas tábuas.

Como garras rasgando madeira.

Juan e Lola nunca mais foram vistos.

Tidos como desaparecidos.

Tomás foi até a praia.

O mar estava calmo.

Belo.

Perfeito.

Ele tirou um pequeno sino enferrujado do bolso.

E tocou uma única vez.

O oceano respondeu.

Cabeças pálidas surgiram entre as ondas.

Uma voz antiga ecoou da água.

– A dívida continua, Tomás.

Ele fechou os olhos.

– Eu sei.

A criatura respondeu:

– Então traga mais.

Tomás olhou para a pousada.

E murmurou:

– Sempre trago.

Pescadores juraram ter visto duas novas silhuetas pálidas entre as ondas.

Cantando.

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