A folha em branco sempre foi a minha primeira adversária. Escrever política diariamente num jornal de grande tiragem parecia tarefa fácil para quem via de fora. Escândalos não faltavam; personagens, menos ainda. O Brasil produzia manchetes como quem produz lixo: sem esforço, sem pausa.
Eu acordava antes do sol e antes dos fatos se acomodarem. Café forte, aplicativos abertos, notificações piscando como alarmes cardíacos. O tempo era curto. A concorrência, feroz. E a verdade, sempre atrasada.
Naquela manhã, três vereadores, dois servidores públicos e um empresário haviam sido presos. Licitação fraudada para coleta de lixo. Caminhões com especificações técnicas que apenas uma empresa poderia atender. O edital parecia sob medida como um terno encomendado para um único corpo.
Consegui a íntegra do processo antes da maioria. Li cada página. Havia ali um padrão antigo: desclassificações por detalhes mínimos, exigências direcionadas, exclusividade conveniente. Nada novo. Apenas mais sofisticado.
Na redação, o terceiro café já esfriava quando comecei a escrever. Não bastava narrar prisões; era preciso contextualizar. Mostrar o desenho maior. Nomear relações.
Um dos vereadores presos era irmão do Prefeito.
Incluí a informação. Verificada.
Minutos depois da publicação on-line, o telefone tocou. A assessoria do Executivo classificou o texto como “leviano”. O advogado dos investigados anunciou medidas judiciais. Um colega me lançou um olhar rápido: “Tem certeza de tudo?”
Tinha.
À tarde, surgiram novas peças. Fotos de carros apreendidos. Extratos bancários. Saques vultosos feitos diretamente no caixa. E uma imagem que fechava o círculo: o Prefeito, padrinho de casamento da filha do empresário investigado, sorrindo em traje social.
Atualizei a coluna para a edição impressa do dia seguinte. Acrescentei os vínculos, citei as negativas oficiais, mencionei o habeas corpus já protocolado.
Naquela noite, as mensagens começaram. Algumas anônimas. Outras nem tanto. Falaram em dano moral, em calúnia, em consequências.
No dia seguinte, antes que o jornal chegasse às bancas, a Polícia Civil bateu à porta do Prefeito.
Nova prisão.
Sentei-me novamente diante da tela branca. Não havia surpresa. Nem euforia. Apenas a repetição de sempre: poder, proximidade, dinheiro, negação.
Escrevi a primeira frase com a mesma sensação de todas as manhãs; a de que nada daquilo era extraordinário.
Na política, o escândalo é eventual.
O padrão é permanente.
E qualquer semelhança com a realidade, como se diz por aí, não é coincidência.
É método.


