O VELÓRIO DO MEU PRIMO ARTHUR

Arthur morreu aos vinte anos, vítima de mais uma violência urbana quando uma bala perdida o achou.

O corpo chegou ao cemitério já de noite. Durante a madrugada, ficaram apenas os íntimos: alguns parentes, dois amigos de infância e eu. O salão era amplo, refrigerado e confortável, pensado para longas despedidas e cochilos discretos. Serviram café, canapés e água importada. Arthur, que sempre detestou cerimônias, teria reclamado da formalidade, não da comida.

Meus tios posicionaram-se ao lado do caixão de mogno com adereços em entalhe, tão bem trabalhado que parecia pedir desculpas por abrigar um jovem. Minha tia chorava de modo comedido, economizando forças. Meu tio, Deputado Federal em seu sexto mandato, fazia o que sempre fez melhor: permanecia de pé, distribuindo acenos como se estivesse inaugurando uma ponte.

Com o amanhecer, o velório ganhou vida. Chegaram parentes distantes, amigos próximos e políticos, muitos políticos. O pátio do cemitério transformou-se num elegante corredor institucional: ternos escuros, seguranças atentos, assessores cochichando. O luto agora tinha protocolo.

Arthur fora muito querido. Não apenas pelos amigos, mas também por suas duas namoradas que se toleravam em nome da sinceridade afetiva e de joias generosas. Ele dizia que não gostava de mentir; preferia organizar.

O encontro foi inevitável. Ambas usavam colares idênticos com pérolas cruzadas por correntes de ouro. Reconheceram-se de imediato. As ofensas começaram discretas, como convém ao ambiente, mas logo ganharam volume e sinceridade. “Vadia” foi apenas o aquecimento. Em poucos segundos, puxões de cabelo, tropeços e um encontrão no caixão ameaçaram transformar Arthur no primeiro defunto a pedir socorro. Foram separadas. A namorada mais próxima da família ficou; a outra, retirou-se antes das sete da manhã, chorando e com a dignidade possível.

Meu tio observava tudo com indulgência. Não podia se escandalizar: mantinha três mulheres, com a vantagem administrativa de que nenhuma sabia da outra. Além da esposa oficial, havia uma assessora parlamentar e uma secretária executiva de uma estatal que ele presidira no passado. Com esta última tivera outro filho, curiosamente da mesma idade de Arthur. A coincidência genética nunca fora revelada.

As amantes comportavam-se com a descrição que o cargo exigia. Em determinado momento, a secretária aproximou-se e sussurrou algo ao ouvido do Deputado. O maxilar dele endureceu por um instante. Questionado, explicou tratar-se de uma funcionária representando oficialmente a estatal. A mentira saiu limpa, sem tropeços. Anos de prática.

Minha tia, antes de ser esposa, fora projeto. Jovem, bonita e ambiciosa, conheceu meu tio em campanha. Consolidou a posição em Brasília, encantando diplomatas com inglês impecável e sorriso calibrado. Casaram-se. Tempos depois, soube por um segurança pouco discreto que ela fazia viagens frequentes ao Uruguai com uma mala pesada demais para roupas.

– Amor, vai lá, disse ela ao marido, apontando o pátio lotado.

– Teus amigos estão te esperando.

E ele foi, finalmente em seu habitat natural.

Onde políticos se reúnem, a liturgia falha. O debate esquentou, uma acusação foi feita e um ex-lutador de boxe resolveu responder com o vocabulário que dominava. O pátio do cemitério virou uma sessão extraordinária do Congresso: gritos, socos, empurrões, gestos eloquentes. Seguranças intervieram. Alguns ternos sofreram danos irreparáveis.

No salão, os parentes conversavam com compostura. Outros nem apareceram: nunca perdoaram meu tio por sua conhecida incapacidade de ajudar financeiramente. Eu, ao contrário, sempre fora beneficiado. Cresci com Arthur. Fui à Disney com ele aos quinze. Aos dezoito, ganhei um carro do titio, desde que acompanhasse meu primo nas festas e aventuras. Criticar privilégios, quando se usufrui deles, é um exercício confortável.

Os parentes da minha tia destoavam. Pobres, choravam com intensidade e comiam com empenho. Alguns pediam fotos com autoridades, certos de que aquilo, se não rendesse dinheiro, ao menos renderia curtidas.

Pouco antes do enterro, chegou um jovem desconhecido de todos, menos do meu tio, acompanhado de um homem com pasta e postura.

Não cumprimentaram ninguém. Não olharam para o caixão.

O homem apresentou-se: Oficial de Justiça. A ação judicial era de reconhecimento de paternidade, com danos morais e materiais. O timing fora impecável.

O rapaz anunciou-se:

– Boa tarde. Sou o filho ainda vivo do Deputado.

Minha tia desmaiou com elegância. Celulares se ergueram. Filmou-se tudo: o choro, o escândalo, o morto. O velório virou detalhe.

O enterro atrasou uma hora. Meu tio assinou alguns documentos, livrou-se do Oficial de Justiça e recebeu como despedida do filho “bastardo”, uma cusparada no rosto. Não reagiu. Estava acostumado a engolir coisas piores.

Quando o caixão finalmente desceu, houve silêncio. Arthur jamais suportaria aquele espetáculo. Tanta gente viva, tão pouca dignidade.

Talvez tenha sido melhor assim. Entre tantos moralmente mortos, Arthur foi o único a ter direito ao descanso.

Descanse em paz, primo.

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