O VENTO FRIO SOB A MARQUISE

O primeiro vento da manhã sempre vinha frio. Não importava a estação: atravessava as frestas da marquise e lembrava a quem dormia ali que a cidade não tinha teto para todos.

Jonas acordou com o som áspero de uma lixeira sendo arrastada pela calçada. O corpo doía inteiro, especialmente os joelhos, castigados pelo cimento. Esticou-se devagar. O cobertor fino, encardido e rasgado nas bordas, aquecia menos que uma ideia de conforto. Ao lado, uma garrafa plástica quase vazia e um pão embolorado recolhido do lixo na noite anterior.

Não sabia quando começara a viver assim. As memórias vinham em pedaços: uma mulher sorrindo à porta de um apartamento, o cheiro de café fresco, um menino de uniforme escolar. Depois, um silêncio comprido, sem data de término.

Foi até a esquina. O semáforo estava vermelho e os carros se amontoavam como se competissem por alguns segundos a mais de vida. Jonas ergueu a plaquinha de papelão: Tenho fome. Qualquer ajuda serve.

Alguns desviavam o olhar. Outros se refugiavam nos celulares. Uma senhora deixou cair uma moeda na mão dele, sem palavra alguma. Jonas agradeceu com um olhar pesado, quase um pedido de desculpa por estar ali.

Na praça, um homem de terno passou rápido e prendeu a respiração. Jonas sorriu de lado e se sentou. Observava o movimento como quem assiste a um filme do lado de fora do cinema, sem ingresso.

À tarde, a chuva caiu fina. Molhou o cobertor, a roupa, os ossos. De volta à marquise, encostado à parede, havia um cartaz luminoso anunciando apartamentos de luxo, piscina na cobertura, vista para o mar. Jonas ficou olhando aquele cartaz durante alguns minutos, sem expressão.

Quando a noite chegou, a cidade apagou os rostos e deixou apenas passos e buzinas distantes. Jonas fechou os olhos, tentando lembrar o nome do filho ou se havia um filho.

Um carro preto estacionou devagar no canto da rua. Um homem desceu e ficou parado, observando. A porta ficou aberta. Os olhares se encontraram num silêncio espesso, como se se reconhecessem numa vida possível.

O semáforo abriu.

O carro partiu.

A madrugada pesava como um cobertor molhado. Jonas tremia. Talvez de frio. Talvez de memória.

Um toque leve no ombro.


Uma mulher de casaco azul, sacola de mercado, olhar cansado.

– Moço… o senhor está bem?

Jonas desviou o rosto. Ela estendeu um pacote de pão ainda morno e uma garrafa de água.

– Não é muito, mas é de coração.

Ele assentiu. Guardou aquele gesto num lugar ainda intacto dentro de si.

O dia amanheceu cinza. Jonas segurava a plaquinha quando viu, do outro lado da rua, o mesmo carro preto parado. O homem desceu.

Separados pela faixa de pedestres, deram um passo quase ao mesmo tempo. O trânsito rugia.

– Você… – disse o homem.

Jonas foi falar, mas o mundo se moveu antes. Uma bicicleta derrapou. Um motorista freou tarde demais. Houve um impacto seco.

Jonas foi arremessado.

O homem correu, ajoelhou-se perto dele e disse algo que ninguém ouviu. A mulher do casaco azul voltou correndo. Pessoas se aproximaram. Alguém filmou. Alguém chamou socorro.

Quando a ambulância chegou, Jonas já não sentia frio.

– Foi a óbito, – disse o médico.

O nome Jonas pairou por instantes no ar, entre a placa de papelão amassada e a marquise. Depois se dissolveu.

Dias depois, sob aquela mesma marquise de vento frio, outro morador se instalou.

A cidade seguiu respirando.

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