O despertador tocou antes do sol nascer. Júlia silenciou o aparelho antes do segundo toque e ficou alguns segundos olhando o teto, como se esperasse que algo não acontecesse. Levantou-se.
Do décimo quinto andar, a cidade ainda parecia suspensa, mas era só aparência. Lá embaixo, o barulho dos ônibus começava a se espalhar pelas ruas, um zumbido contínuo. Júlia foi até a janela. Na esquina, o homem montava a barraca de tapioca com a precisão de sempre, dobrando a lona, ajustando o balcão improvisado. Nunca haviam conversado, mas ela reconhecia o horário, os gestos, a permanência. Havia algo tranquilizador naquilo.
Na calçada, o dia se organizava sem desvios.
– Anda logo, garoto! – gritou o motorista, impaciente.
– Tá com pressa? – respondeu o menino, atravessando sem erguer os olhos do celular.
Júlia desviou e seguiu. Ao passar pela esquina, notou que o homem da tapioca levantou o olhar por um instante, como se fosse dizer algo. Não disse.
No metrô, os corpos se comprimiam, encaixados à força. Júlia segurou a barra de metal, sentindo o frio atravessar a palma da mão. Um homem resmungou:
– Todo dia isso.
– Pelo menos hoje tá andando, – respondeu outro, quase sem humor.
Ela fechou os olhos por um segundo. Aquele diálogo poderia ter acontecido em qualquer manhã. Tudo sempre igual.
No trabalho, passou o crachá, sentou-se, ligou o computador. O corredor branco, o som dos teclados, o ar condicionado constante. Ao pegar café, cruzou com Serena.
– Dormiu bem? – perguntou a colega, com o copo na mão.
– Dormi… como sempre.
– Isso é bom.
Júlia pensou em dizer algo, mas desistiu.
A tarde avançou em tarefas mecânicas. No fim do expediente, o metrô parou entre estações. As luzes piscaram e se apagaram.
– Ih…, – alguém murmurou.
– Calma, – disse uma senhora. – Isso acontece todo dia.
No escuro, Júlia respirou fundo. Pela primeira vez em horas, ouviu apenas o próprio fôlego, sem telas, sem avisos, sem pressa. O silêncio durou pouco. As luzes voltaram, os celulares se acenderam quase ao mesmo tempo, e o vagão retomou o ritmo.
Na manhã seguinte, Júlia acordou antes do despertador. Vestiu-se sem demora e desceu à rua com uma atenção estranha, como se tivesse esquecido algo.
Ao chegar à esquina, Júlia diminuiu o passo. Não havia barraca, nem lona, nem cheiro. Apenas a calçada livre, limpa demais. Júlia conferiu o horário. Olhou em volta. As pessoas passavam apressadas, ocupando o espaço sem hesitar.
Parou por um instante, esperando que alguém comentasse, mas as pessoas apenas passavam, ocupando o espaço sem notar. Júlia sentiu um aperto no peito, inesperado, e pensou em como certas ausências só doem em quem percebe. Respirou fundo e seguiu, procurando se misturar outra vez ao movimento.


