No primeiro dia em Paris, Miguel teve a impressão de que a cidade possuía uma memória própria.
A chuva fina fazia o asfalto brilhar, e as luzes refletidas nas ruas pareciam fragmentos de histórias antigas.
Ele havia chegado numa tarde fria de outubro, atravessando a Rue de Rivoli com uma mala pequena e um caderno de capa preta. Viera estudar história da arte por um ano, embora não tivesse certeza se aquilo era exatamente o que queria.
Às vezes, pensava que tinha vindo apenas para se afastar de tudo que conhecia.
Nos primeiros dias caminhou sem destino.
Passava horas percorrendo as margens do Sena, atravessando pontes, observando pessoas que pareciam pertencer naturalmente àquela cidade – estudantes, músicos, casais que falavam baixo como se Paris exigisse uma certa delicadeza.
Foi numa dessas caminhadas que entrou na pequena livraria Shakespeare and Company, na Rue de la Bûcherie. Do outro lado da rua, a catedral de Notre-Dame se erguia silenciosa, como se observasse discretamente quem entrava ali.
O interior da livraria era quente e apertado, cheio de escadas estreitas e pilhas de livros. O cheiro de papel envelhecido parecia suspenso no ar.
Foi então que a viu.
Bela estava perto da janela, segurando um livro aberto. A luz cinzenta da tarde atravessava o vidro e iluminava seu rosto com uma suavidade quase distraída. Havia nela uma concentração silenciosa, como se estivesse mais interessada no mundo dentro do livro do que no que acontecia ao redor.
Miguel reconheceu o autor.
E ouviu quando ela comentou em português com a amiga ao lado.
Ele não resistiu.
– Esse poeta é perigoso.
Bela ergueu os olhos, surpresa.
– Perigoso?
– Faz a gente acreditar em coisas que talvez não existam.
Ela fechou o livro lentamente.
– Então por que você lê?
Miguel demorou alguns segundos antes de responder.
– Porque às vezes a gente precisa acreditar mesmo assim.
Bela sorriu.
Não foi um sorriso grande, mas tinha uma sinceridade tranquila.
Foi assim que começaram.
No dia seguinte se encontraram por acaso caminhando pelo Quartier Latin. Depois, já não era acaso.
Passaram a se encontrar nos cafés do Boulevard Saint-Germain.
Bela estudava literatura comparada na universidade e falava com entusiasmo sobre escritores que Miguel nunca tinha lido. Quando se animava, gesticulava muito, como se as palavras precisassem de espaço no ar.
Às vezes terminavam a noite no Café de Flore, espremidos entre turistas e estudantes, discutindo poesia enquanto os garçons começavam a empilhar cadeiras.
Outras vezes iam ao Les Deux Magots, onde Bela dizia que os fantasmas de escritores ainda deviam estar escondidos nas paredes.
Miguel gostava mais das caminhadas.
Paris parecia uma cidade feita para caminhar.
Eles atravessavam ruas estreitas do Quartier Latin, desciam pela Rue Mouffetard cheia de pequenas lojas e barracas de comida, e quase sempre terminavam nas margens do Sena.
Bela falava muito quando estava animada.
Mas também havia longos silêncios entre eles.
Silêncios que não eram desconfortáveis.
Era como se ambos soubessem que certas coisas ainda não precisavam ser ditas.
O inverno começava a chegar.
As folhas caíam no Jardin du Luxembourg e músicos tocavam perto das pontes.
Foi ali, numa tarde fria, que Julien apareceu.
Bela estava sentada numa das cadeiras verdes perto da fonte quando um rapaz se aproximou e a cumprimentou com familiaridade.
– Miguel, este é Julien.
Julien estudava literatura francesa na mesma universidade. Era parisiense, nascido e criado ali. Tinha o tipo de confiança tranquila de quem nunca precisou aprender a cidade porque sempre pertenceu a ela.
Falava rápido, gesticulava muito e parecia conhecer cada rua escondida.
– Vocês precisam conhecer um lugar – disse ele depois de alguns minutos. – Um restaurante antigo na Rue de l’Ancienne Comédie.
Naquela noite os três foram ao Le Procope.
Entre espelhos antigos e luzes amareladas, Julien contou histórias da cidade como se revelasse segredos. Falou de revoluções, de escritores, de cafés onde ideias haviam mudado o mundo.
Bela escutava com interesse.
Miguel observava.
Nos dias seguintes Julien passou a aparecer com frequência.
Primeiro, nas aulas de Bela.
Depois nos cafés.
Depois nas caminhadas.
Ele tinha uma presença que ocupava o espaço com facilidade.
Onde Miguel era reservado, Julien era expansivo.
Onde Miguel observava, Julien participava.
Bela parecia gostar dos dois de maneiras diferentes.
Com Miguel havia silêncio, caminhadas longas, perguntas sem resposta.
Com Julien havia intensidade: discussões acaloradas, risadas altas, provocações constantes.
O inverno avançava.
As tardes escureciam mais cedo.
E alguma coisa começou a mudar.
Miguel percebeu primeiro.
Talvez porque estivesse mais acostumado a observar do que a agir.
Era algo pequeno: o modo como Julien tocava o braço de Bela quando ria. Ou como ela demorava um pouco mais antes de responder certas perguntas.
Nada explícito.
Mas suficiente.
Numa noite chuvosa, Miguel e Julien ficaram sozinhos num pequeno bar perto do Sena.
Bela tinha ido embora mais cedo, dizendo que precisava terminar um trabalho.
Durante algum tempo falaram sobre trivialidades.
Até que Julien perguntou:
– Você pretende ficar em Paris depois dos estudos?
Miguel girou lentamente o copo na mesa.
– Não sei, respondeu com certa rispidez.
Julien olhou pela janela, para a rua molhada.
– Eu gostaria que ela ficasse.
A frase parecia simples, mas provocadora.
Miguel não respondeu.
Alguns dias depois, os três caminharam até a Pont des Arts.
O rio corria escuro abaixo deles. Ao longe, as luzes do Louvre iluminavam a margem oposta.
Bela apoiou os cotovelos na pedra da ponte.
– Vocês já pensaram – disse ela – que algumas cidades existem apenas para um momento da vida?
Julien respondeu primeiro.
– Eu nasci aqui. Então, espero que não.
Ela sorriu.
Depois olhou para Miguel.
– E você?
Ele pensou antes de responder.
– Talvez algumas pessoas também sejam assim.
Bela não disse nada.
O silêncio que se seguiu parecia diferente dos outros.
Mais pesado.
Como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer ou desaparecer.
Alguns dias depois, Bela parou de aparecer.
Primeiro faltou a um encontro no Café de Flore.
Depois não respondeu mensagens.
Uma semana mais tarde, Miguel voltou à Shakespeare and Company.
O mesmo cheiro de livros.
As mesmas escadas estreitas.
O dono da livraria lhe entregou um pequeno papel.
– Uma amiga deixou isso para você.
Era a letra de Bela.
“Às vezes encontramos pessoas exatamente quando estamos mudando de vida. E isso torna tudo mais difícil. Ou mais verdadeiro. Ainda não sei qual.”
Não havia assinatura.
Naquela noite, Miguel caminhou sozinho pelas margens do Sena.
Passou pela Pont Neuf.
Depois seguiu pela Rue de Rivoli, enquanto o vento frio atravessava as ruas largas.
Em certo momento pensou ter visto Bela atravessando uma ponte à frente.
O mesmo casaco.
O mesmo modo de andar.
Ou talvez fosse apenas alguém parecido.
Ele parou.
A figura continuou andando até desaparecer entre as luzes da cidade.
Miguel não correu atrás.
Ficou olhando o rio por um longo tempo, como se esperasse que Paris revelasse alguma resposta.
Mas algumas cidades – como algumas pessoas – preferem guardar seus segredos.
E, naquela noite, Paris permaneceu em silêncio.

