VINTE TONS DE VERMELHO

Juan P. Hernandez nasceu em Havana, em uma casa simples, onde o calor do sol caribenho se misturava ao cheiro forte de tabaco e barro úmido. O pai cultivava a plantação de folhas que alimentava as fábricas de charutos, enquanto a mãe moldava figuras femininas de barro, seios fartos, vestidos coloridos, que vendia na Feira de La Rampa.

Para Juan, aquele ambiente era ao mesmo tempo prisão e inspiração. Entre o barro e o lápis, descobriu que podia criar mundos inteiros, mesmo sob a vigilância do Estado.

Enquanto os irmãos carregavam sacos pesados sob o sol, Juan desenhava ternos, vestidos e uniformes militares, imaginando formas que jamais existiram. Cada traço era rebeldia silenciosa, mas necessária.

– Juan, por que você não trabalha de verdade? – disse o irmão mais velho, a voz carregada de reprovação, enquanto esticava a mão para pegar um caderno.

– Trabalho. Só que com minhas mãos, não com meus músculos, – respondeu Juan, fixando o olhar no papel. – Algum dia você vai entender.

O irmão apenas balançou a cabeça, sem dizer mais nada. Mas no fundo, todos sabiam que Juan não era como eles.

O destino apareceu de forma abrupta. Um Coronel passou pela feira, observou os desenhos expostos pelo artesão amigo de Juan e parou.

– Quem fez isso? – perguntou, com a voz firme.

– Um jovem… um talento, – respondeu o artesão, desviando o olhar.

Juan sentiu o coração bater mais rápido. O Coronel estudou cada desenho, e por um instante, o silêncio pesou mais que o calor do dia.

Dias depois, um soldado bateu à porta da família.

Procuramos Juan P. Hernandez, – disse, – ele precisa vir conosco ao Palácio da Revolução.

Juan olhou para a mãe, que manteve o semblante calmo, mas a tensão nos olhos falava mais alto.

– Vá, meu filho. Mas lembre-se de quem você é. Lembre-se de nós.

No Palácio, cada corredor era frio e silencioso, cada detalhe parecia observá-lo. O Coronel aguardava, com mãos cruzadas e olhar firme.

– Temos uma tradição que precisa ser respeitada, mas devemos renová-la, – disse o Coronel, medindo cada palavra.

– Você entende o que isso significa, não é, Juan?

Juan respirou fundo.

– Sim, senhor. Cada linha deve contar uma história… mas também… uma esperança.

O Coronel o observou como se tivesse entendido mais do que ele disse. Mas, em seus olhos havia dúvida: até que ponto um jovem poderia equilibrar arte e política sem se perder?

Juan mergulhou nos desenhos, transformando bonés, paletós, divisas e boinas vermelhas em símbolos de poder e memória. Cada traço carregava força e história. Mas ele sentia o peso do que não podia ser dito: cada linha era também um ato de risco.

Meses depois, surgiu um convite inesperado: Paris. Um evento internacional reuniria designers de todo o mundo, e Juan poderia representar Cuba. Mas havia uma exigência explícita: seu retorno seria obrigatório.

– Paris… seria a chance de tudo, – murmurou Juan, enquanto o Coronel lia o despacho com expressão impassível.

– Chance de quê? – perguntou o Coronel, a voz baixa, quase um sussurro.

– De escapar? De esquecer que aqui seu talento tem um propósito maior?

Juan desviou o olhar.

– Não quero escapar ou esquecer… – disse, mas sua voz traía o desejo de algo mais, de liberdade.

– Só quero usar o que sei para mostrar que também podemos ser vistos de outra forma.

O Coronel permaneceu em silêncio, apertando os lábios. Por um instante, Juan achou que havia compreendido mais do que poderia esperar. Mas a ordem era clara: não havia escolha.

Em Paris, a cidade pulsava liberdade. Luzes, ruas movimentadas, a possibilidade de criar sem censura. No evento, seus uniformes encantaram críticos e colecionadores. Mas a ordem de retorno ecoava em sua mente. Cada aplauso vinha acompanhado de culpa e incerteza.

– Monsieur Hernandez, você tem algo que transcende as fardas, – disse um crítico francês, admirado. – Mas você parece… preso a alguma coisa.

– Preso? – perguntou Juan, suspirando. – Talvez. Ou talvez seja apenas saudades.

À noite, sozinho no quarto, o telefone tocou. Era Havana? O Coronel? Ele deixou a chamada tocar. Respirou fundo, pegou o caderno e lápis. Cada linha traçada parecia conter o peso do passado e a promessa do futuro.

– Talvez… haja outro caminho, – murmurou consigo mesmo, olhando pela janela para as luzes refletidas no Sena.

– Um caminho que eu ainda não vejo.

Anos se passaram.

De outro lado, Juan não podia mais visitar Cuba. Haviam-lhe revogado a cidadania por conta da deserção. Mas o “Triunfo”, àquelas alturas, já não tinha artistas, nem intelectuais, nem poesia, nem fé.

Juan tornou-se Monsieur Hernandez, conhecido e celebrado nas boutiques da Chans-Élysées e do 7ème arrondissement.

Seus vestidos chegavam à elite europeia. Mas as lembranças de Havana continuavam a pulsar, vermelho e vivas em cada boneca de barro, tabaco e calor.

Entre desfiles e ateliers, ele pensava na família, na cidade que deixou para trás, no custo da liberdade.

E ali, na quietude de um apartamento parisiense, diante do caderno aberto, Juan lançou-se ao primeiro traço de sua nova criação.

 O lápis deslizou pelo papel, e por um instante, tudo ficou em silêncio: o passado, o futuro, o que ficou para trás e o que ainda não ousava imaginar.

O destino permanecia indecifrável.

Entre memórias e possibilidades, Juan continuava a desenhar.

Cada linha era uma escolha, cada sombra, uma dúvida, cada espaço em branco, uma promessa. E assim, ele permanecia em suspensão, entre o que deixou e o que poderia ser de  um  caminho que apenas o próximo desenho revelaria.

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