A casa ficava no fim da rua, onde o asfalto se desfazia em pó e o bairro parecia desistir. Era a última construção, isolada por uma distância que não media metros, mas medo.
As janelas altas jamais se abriam. O telhado rangia sozinho, num lamento baixo, mesmo quando não havia vento. Ninguém sabia ao certo quando fora construída; sabia-se apenas que, anos antes, uma família inteira fora encontrada morta ali dentro. Não havia ferimentos. Não havia luta. Não havia tentativa de fuga. Os corpos estavam deitados em suas camas, com os olhos abertos demais para o descanso.
O laudo oficial resumira tudo em duas palavras: causa indeterminada.
O tempo fez seu trabalho. O horror virou boato, o boato virou lenda, e o aluguel barato silenciou o que restava. Foi assim que Marcos e Patrícia chegaram, trazendo a filha, Clara.
Durante o dia, a casa parecia apenas antiga. O cheiro de mofo ficava na superfície das paredes, como uma memória fraca. Clara correu pelos corredores, e seu riso voltou atrasado, repetido, como se tivesse batido em algo antes de retornar.
À noite, o silêncio mudava.
Não era ausência de som, mas presença. As paredes pareciam tensas.
Na primeira madrugada, vieram os passos no andar de cima. Não eram estalos de madeira cansada, mas um caminhar lento e deliberado. Marcos subiu com uma lanterna, chamando por alguém que não existia. Encontrou corredores vazios. Portas abertas. Ao descer, sentiu uma respiração quente muito próxima, acompanhando cada degrau.
Na noite seguinte, Clara acordou gritando. Disse que havia pessoas no quarto, não sombras, não monstros, mas pessoas paradas nos cantos, de olhos fundos e sorrisos imóveis. Disse que não piscavam. Que só se aproximavam quando ela fechava os olhos.
Quando Patrícia acendeu a luz, não havia ninguém. O quarto, porém, estava frio demais, e o ar carregava um odor ácido, antigo.
Na terceira noite, marcas surgiram no espelho do banheiro. Mãos pressionadas por dentro do vidro, sobrepostas, insistentes, como se algo tentasse atravessar.
Ao amanhecer, desapareceram. O espelho, contudo, continuou refletindo os rostos do casal de forma estranha. Eles não se reconheceram por completo.
A pesquisa confirmou o que o medo já dizia. Os antigos moradores também ouviram passos. Também falaram de vozes que chamavam pelo nome. Também viram marcas que sumiam com a luz. Todos morreram em seus quartos, deitados, os olhos fixos em algo que ninguém mais podia ver.
Na quarta noite, tentaram dormir na sala, com Clara entre eles. À meia-noite, a casa estalou inteira, ajustando-se. As portas se fecharam. As janelas bateram. O relógio parou.
A voz não veio do teto nem das paredes. Veio de dentro.
– Agora são vocês.
O ar cedeu. Patrícia sentiu mãos invisíveis empurrando-a para baixo. Marcos tentou gritar, mas algo lhe fechou a garganta. Clara olhava para o alto, quieta demais, como se estivesse ouvindo instruções.
Na manhã seguinte, um vizinho jurou ter visto silhuetas imóveis nas janelas do andar de cima. Outro falou em passos lentos, reaprendendo a andar.
Dias depois, bateram à porta. Não houve resposta. Insistiram.
A casa permanecia ali, imóvel e silenciosa.
Por dentro, respirava, esperando…



Estou gostando de ler, e curiosa para ver onde toda essa história vai chegar