DIÁLOGO QUASE IMPOSSÍVEL

O sol esturricava o lajedo de um lado; do outro, o minuano soprava de carregar chapéu. No limbo espacial de uma rodoviária esquecida por Deus no meio do caminho, o destino resolveu pregar uma peça.

Sentado num banco de madeira, Severino, neto legítimo de um cabra que corria com Lampião, ajeitava o chapéu de couro quebrado na testa. Ao seu lado, Juca, um domador de cavalos que falava com os bichos em “gauchês” arcaico, escorava o cano da bota e ceifava um mate.

Severino olhou para a cuia de Juca, depois para o poncho de lã grossa em pleno calor de rachar coco.

— Ô, patrão… com todo respeito, mas o senhor tá vestido pra esperar o fim do mundo ou é só medo de uma brisa? — perguntou Severino, limpando o suor do pescoço com um lenço vermelho.

Juca nem piscou. Puxou o ar pela bomba do mate, fazendo aquele ruído de fim de poço, e respondeu com a voz de quem engoliu cascalho:

— É a lida, vivente. O frio entra nos ossos, mas a honra mantém o lombo quente. E tu, que usa esse chapéu de meia-lua? Tá esperando o eclipse ou fugindo da polícia?

Severino deu uma risada seca, dessas que parecem estalo de xaxado.

— Isso aqui é herança, home! Meu avô, o “Corta-Vento”, não deixava rastro na areia nem sombra no chão. Ele amansava coronel na base do grito. Eu herdei o sangue e a coragem de enfrentar o que vem pela frente.

Juca soltou uma baforada de fumaça de um palheiro que surgiu do nada.

— Pois meu tataravô domava cavalo chucro só no olhar, guri. Teve um redomão lá nas Missões que era o próprio tinhoso. O velho montou no bicho, e o bicho corria tanto que, quando pararam, o cavalo tinha envelhecido dez anos e o velho ainda tava com o cigarro aceso.

— Grande coisa! — rebateu Severino, empolgado. — Meu avô uma vez foi cercado por dez volantes. Ele não tinha bala. Sabe o que fez? Deu um grito tão medonho que os bodes da redondeza começaram a dar leite e os soldados pediram desculpa e foram embora rezando o terço!

A conversa começou a degringolar quando o regionalismo bateu no teto.

— Pois eu tô aqui esperando esse ônibus que tá mais devagar que cágado com câimbra. Tô com uma fome que se passar um calango eu taco o tempero!

— Mas bah, tche! Tu tá num estado de viração que dá pena. Eu tô aqui firme como prego em fumo de corda, mas se esse coletivo não encosta, eu pego meu baio e saio a galope, que não sou de ficar mofando em galpão de estrada.

Severino olhou atravessado:

— “Baio”? Que diacho de fruta é essa? É de comer ou de passar no cabelo?

Juca quase engasgou com a erva:

— Baio é a pelagem do cavalo, criatura! É o pingo! O animal de montaria!

— Ah! O jumento! — exclamou Severino. — Por que não disse logo? Lá no Sertão, a gente monta é em bicho que aguenta sede. Se der água pra um cavalo desses de vocês, ele morre de susto ou de afogamento.

Nesse momento, um ônibus caindo aos pedaços estacionou, soltando uma fumaça preta que cobriu os dois.

— Óia o bicho aí — disse Severino, levantando-se. — Vamos simbora, gaúcho. Se tu sobreviver ao calor do meu Ceará, eu te ensino a fazer uma buchada que faz o cabra ver os antepassados.

Juca ajeitou o lenço no pescoço e pegou sua mala de couro. — E se tu aguentar um inverno no Pampa, eu te dou um churrasco que faz esse teu couro de cabra virar seda.

Subiram no ônibus. Severino ofereceu uma rapadura; Juca ofereceu um naco de charque. O motorista, vendo aquela dupla, só suspirou:

— É… o Brasil não é para amadores.

E o ônibus seguiu, sacolejando entre o “Vixe” e o “Bah”, rumo ao horizonte que ninguém sabia onde terminava.

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